Banrisul dobra a aposta com a vida dos colegas

Banco anuncia que vai flexibilizar atendimento presencial nas agências em plena pandemia, acelera a volta à normalidade, reverte a política de preservação da vida e é advertido pelos dirigentes sobre assumir responsabilidades pela saúde de familiares dos Banrisulenses e de clientes

Até a tarde da terça-feira, 3/11, o Banrisul dava exemplo no combate à vetorização do novo coronavírus e de trabalho na contenção dos casos de Covid-19. Mas a política de preservação da vida deu lugar à insanidade. Na reunião permanente com a Comissão de Negociação temática do Comando Nacional dos Banrisulenses, os representantes do banco trouxeram a notícia da flexibilização, abertura de agências e de praticamente voltar à normalidade.

Leia-se com todas as letras possíveis que o Banrisul, em plena pandemia e quando se anuncia uma segunda onda de infecção, resolveu dobrar a aposta com a vida dos colegas, de seus familiares e dos clientes. O resultado é aglomeração nas agências, maior circulação de clientes em locais fechados e, claro, condições ideais para o novo coronavírus vicejar. Os dirigentes sindicais fizeram um alerta: vão enviar um termo para o Banrisul assinar um compromisso de responsabilização com a vida das pessoas.

O banco alega que o resultado até agora está ruim, que muitos clientes reclamam do sistema de agendamento, que o banco anda preocupado com o fato de a concorrência estar liberando geral e invocou a bandeira laranja do sistema de distanciamento controlado do governo do Estado, que é capaz de controlar algumas variáveis, menos as mais importantes: a circulação de pessoas e o próprio coronavírus.

Diante da decisão que os representantes dizem ser irrevogável, o banco diz que vai ficar alerta e pode recuar, caso o número de infectados volte a crescer. Os representantes do banco falaram do comportamento da sociedade, que está mais liberado, e da possibilidade de a decisão ser revista. Diga-se que o banco anunciou na reunião o fim de uma política protetiva e desconsiderou acordos de manter informado o Grupo de Trabalho permanentede troca de informações sobre Covid-19.

O negociador do Banrisul, Fernando Perez, entrou em contato com o Sindicato por email na quinta-feira, 5/11, para fazer as seguintes considerações sobre o fim “de uma política protetiva” anunciada pelo banco:

“Esclarecemos:

· Nós não informamos sobre fim de política protetiva dos empregados com relação ao COVID.

· O banco irá continuar tomando uma série de medidas neste sentido.

· Muitas delas devidamente orientadas pelo Hospital Moinho de Ventos.

· Temos mantido e, continuaremos mantendo, o Grupo de Trabalho permanente informado sobre a situação de COVID no banco, assim como renovamos nossa disposição de continuar com as reuniões semanais, para encaminhamento e solução de diversos assuntos ligados ao COVID.”

Então, os dirigentes apontaram questões fundamentais. Não se pode confiar nas bandeiras, os casos em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul não param de crescer e a ampliação do atendimento terá um efeito reverso. Dificilmente favorecerá o crescimento do volume de negócios diante de uma economia em crise sistêmica e será um atentado à imagem do Banrisul.

O diretor da Fetrafi-RS, Sergio Hoff, assinalou que o Banrisul reverteu uma política boa para a sua imagem e passa a arriscar vidas tornando agências um vetor de infecção do novo coronavírus. “Estão acabando com a política protetiva. Quero saber o que o banco sabe sobre a pandemia que nós não sabemos. O banco está fazendo uma aposta. Não é porque todos estamos de saco cheio da pandemia que ela vai deixar de existir. Vamos preparar um termo de responsabilidade para o banco assinar e assumir a responsabilidade pela vida dos colegas, familiares e clientes”, enumerou Sergio.

Argumentos perdidos

Aos poucos, os dirigentes foram derrubando cada um dos argumentos do banco. Mais uma vez, a questão do retrabalho e da falta de compreensão dos gestores da importância de cumprir acordos foi para a mesa. Nessa linha, o presidente do SindBancários, Luciano Fetzner, trouxe relatos de colegas que estão tentando organizar o atendimento da forma mais protetiva possível e que “isso não tem como fazer”.

Segundo Luciano, cada agência, a depender de seu tamanho, número de colegas e até mesmo localização, interpreta de uma forma o agendamento e controla a abertura da agência como dá. “Colegas me disseram: ‘A gente atende quem dá’. Na prática, não existe uma métrica. Só poderia entrar na agência o número de clientes correspondente ao número de bancários em atendimento presencial. Não concordamos que a porta tenha que estar aberta. Não dá para atender a rodo. Não sendo claro o critério, não vai funcionar o que vocês estão defendendo”, detalhou Luciano.

O banco explicou que vai manter a aplicação de protocolos, os monitoramentos e que está ciente e preocupado com novos surtos de infecção. Apresentou dados de um mapa em que aparecem quedas de número de casos. Os representantes da diretoria afirmaram que irão editar uma Instrução Administrativa (IA) até a próxima quinta-feira, 5/11, enfatizando a importância dos protocolos de saúde e de sanitização, do uso de máscaras e álcool em gel. E finalizaram: a “sociedade está mitigando os cuidados”.

Hora de ter ainda mais cuidado

Assim que esta última frase acima entre aspas foi proferida, os dirigentes explicaram que, justamente por essa questão de que as pessoas estejam mais desleixadas com os cuidados, como o uso de máscara, e se aglomerando em praias, que é preciso tomar ainda mais cuidado. Parece óbvio que, definitivamente, esta não é a hora de voltar ao normal.

Em junho, reportagem do jornal Brasil de Fato alertava para os problemas de desenho do distanciamento controlado por cor de bandeira usado pelo Governo do Estado numa situação em que o número de casos de Covid-19 era bem menor. Havia menos leitos de UTI ocupados com doentes e mais preocupação com engajamento e mais incentivo ao isolamento social. E as bandeiras não eram laranja, mas vermelhas.

Cara de preocupação de representante da Fenaban

Quando o banco havia mencionado que seus concorrentes diretos, sobretudo os bancos privados, estavam praticando uma política de abertura de agências, o presidente do Sintrafi Florianópolis, Cleberson Pacheco Eichholz, fez uma imagem precisa do que os outros bancos privados pensam. Mais aglomerações, mais desleixo e a segunda onda de infecções na Europa – e que deve chegar por aqui em dois a três meses – podem colocar o Banrisul na crista da onda de ser um vetor de disseminação do vírus.

Pior, Cleberson citou reunião da quarta-feira, 28/10, entre o Coletivo de Saúde da Contraf-CUT e a Fenaban. A feição de preocupação do representante dos banqueiros na mesa com a segunda onda na Europa vai diretamente na contramão da atitude do Banrisul. Os concorrentes estão preocupados com as imagens dos seus bancos e com a saúde dos(das) trabalhadores(as) e clientes.

“Eles se mostraram muito preocupados com os rumos da pandemia na Europa. Se não olhar agora com cuidado, vamos colher frutos muito amargos. Não é só imprudente o que o Banrisul está fazendo. É irresponsável. Todo o trabalho que o Banrisul fez e que é louvável, se perde. As pessoas não se conscientizam, estão se aglomerando nas praias. Tudo isso tende a piorar com o aumento do número de contaminação”, afirmou Cleberson.

Agências que não precisavam ser fechadas se houvesse revezamento

Dados são muito difíceis de serem refutados assim como as informações que chegam de colegas do Estado inteiro para os dirigentes da Fetrafi-RS. A diretora da Fetrafi-RS, Denise Falkenberg Corrêa, conta que, em média, de quatro a cinco agências do Banrisul são fechadas por dia porque colegas estão adoecendo de Covid-19. Denise conta que os relatos de que não havia revezamento nas agências são constantes e que agora praticamente os revezamentos vão acabar.

Ela contou que uma agência do Interior do estado, importante e grande, fechou algumas vezes. E que, se houvesse revezamento a agência não precisaria fechar, o que reduziria o prejuízo financeiro. “Tivemos muita agência fechada sem necessidade. Se tivesse revezamento, não precisava fechar. Está todo mundo com estafa pandêmica, mas não é motivo para promover aglomeração dentro e fora de agência. Espero que não aconteça aquilo que estamos pensando que vai acontecer. Essa responsabilidade é do banco. Não conversaram com a gente e não nos avisaram. Não estamos só tratando do lucro do banco, mas também da vida das pessoas, dos familiares e dos clientes”, analisou ela, que encerrou sua fala fazendo um apelo para que o banco voltasse atrás na decisão de abrir agências nas proximidades de uma segunda onda de Covid-19.

Economia e leitos de UTI

A preocupação da diretora da Fetrafi-RS, Ana Maria Betim Furquim, diz respeito às notícias de que os leitos de UTI estão ainda mais ocupados depois do feriadão de Nossa Senhora Aparecida, o 12 de outubro, uma segunda-feira, no Estado. As aglomerações das praias costumam ter efeito no volume de casos nas duas ou três semanas seguintes. E o Banrisul deixou para anunciar a reabertura das agências exatamente no dia seguinte ao feriadão de Finados, o 2 de novembro, quando teve justamente aglomerações.

Certamente, podemos esperar um novo surto entre os dias 15 e 25 de novembro, e com as agências do Banrisul abertas uma possibilidade aumentada de novos casos infecciosos. “É preocupante que o banco esteja com essa iniciativa de reabrir agências. Achamos que é prematuro. O gráfico de incidência de casos de Covid-19 está muito alto. As internações nos hospitais voltaram a aumentar depois do feriadão. Nossa preocupação é a incidência dentro das agências. Muitas agências já voltaram antes da nossa conversa aqui”, salientou Ana Betim.

E se o assunto é econômico, o perfil do Banrisul, de ser o “banco do povão”, daqueles correntistas de baixa renda, reabrir as agências talvez não crie o impacto econômico desejado pela diretoria do banco por causa do desemprego e da economia parada. “O gráfico das infecções já esteve melhor, com menos casos e não se estabeleceu a volta ao normal no banco. É fácil colocar a culpa na situação de crise. A economia como um todo não vai bem”, finalizou o diretor da Fetrafi-RS, Fábio Alves.

Também participaram da reunião como representantes dos Banrisulenses Ana Maria da Silva (SEEB Lajeado), André Luis da Silva (SEEB São Sebastião do Caí) e o assessor jurídico da Fetrafi-RS, Milton Fagundes.

Além do negociador Fernando Perez, participaram da reunião, como representantes da diretoria do Banrisul, o Superintendente de RH, Gaspar Saikoski, e o assessor jurídico, Raí Mello.

Fonte: Imprensa SindBancários

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